Além da atração da bola (tema da última crônica), o jogo em si também representa um forte polo que atrai a atenção das pessoas e justifica tanto o seu sucesso. É o que podemos confirmar nas andanças retomadas aos campos de futebol do nosso interior, como homenageado do ano no Departamento de Futebol de Monte Alverne, com o seu campeonato que já foi tema de livro deste autor, ultrapassa mais de quatro décadas e se aproxima de meio século de existência e exemplar organização, caso possivelmente inédito no Estado.

Sentado com parentes e amigos à beira do gramado esportivo nos altos do São Martinho (perto do querido “Posemuckel”), protegido do escaldante sol e do calor na sombra do pavilhão local, enquanto outros usavam a proteção de algumas árvores, viam-se os jogadores entrando em campo já em pleno início da tarde de sábado (8 de fevereiro), sem medo das altíssimas temperaturas que se faziam sentir desconfortavelmente em cada corpo suado. Crianças e adolescentes, também não se importando com as inconveniências do tempo, aproveitavam intervalos para levar a sua bola ao campo e treinar uns passes e chutes a gol, como futuras promessas de atletas a ocuparem os seus espaços.

Era bonito de se ver todo espetáculo e o ambiente festivo formado ao seu redor (cenas semelhantes revistas no sábado, 17/02, em Linha Antão). No gramado, podia-se assistir boas jogadas e até gol de falta, um tanto raro nos campos profissionais. E enquanto a torcida vibrava com o gol no campo, no pavilhão outros jogadores gritavam “solo”, o momento máximo em mais um jogo paralelo, de cartas, que ocorre em grupo menor, o famoso “Schafkopf”, tradição dos imigrantes alemães que segue viva na região e reúne, também e sempre, observadores e torcedores, além da vibração característica dos participantes diretos. Tudo isso recheado de comes quentes e bebes gelados, já desde almoço acessível ao meio-dia.

Publicidade

O evento atrai expressivo público, que encontra nestes momentos uma oportunidade de congraçamento, diversão, entusiasmada troca de ideias além do futebol, da bola e das cartas, envolvendo o andamento da safra, a saúde das pessoas, quem morreu, o que andam fazendo os vivos, o que está acontecendo na região e noutros lugares. E, como se trata de jogos, entra nas conversas até o aumento dos mais variados tipos de jogos que se verifica hoje, como o das apostas, onde inclusive as chamadas “bets” vêm dominando o patrocínio de times profissionais, diante da febre de apostas que incita, já ensejando questionamentos sobre limites.

É sabido que existe uma atração natural das pessoas por jogos. Elencam-se, cientificamente, fatores biológicos que determinam tal comportamento, como liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa, de endorfina, ligado à redução de níveis de estresse e elevação do humor, e, assim, também a simulação de aspectos de interação social, estímulo de processos cognitivos e habilidades sociais, entre outros. Tudo isso leva as pessoas a jogar, a participar de uma forma ou de outra das disputas, mas, como em qualquer atividade e iniciativa humana, é importante exercitar também a moderação.

Se nos Schafkopf da vida trocam-se algumas moedas e notas menores, sem maiores consequências, em outros pode-se ultrapassar limites perigosos, que precisam ser respeitados. Se há casas de apostas e não se resiste a elas, que se restrinja a prestigiar as legais, como uma KTO, inclusive com vínculos (ex-colega Cássio Filter) e apoios locais, e se saiba, como em qualquer outro caso similar, ter controle no jogo. A velha e boa cautela nunca faz mal a ninguém e, também na atração irresistível do jogo, precisa ser fator indispensável a sempre entrar em campo, para que não vença a ilusão, mas apenas o jogo bem jogado.

Publicidade

LEIA MAIS TEXTOS DE BENNO KIST

quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no NOSSO NOVO CANAL DO WhatsApp CLICANDO AQUI 📲 OU, no Telegram, em: t.me/portal_gaz. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!

Publicidade

Ricardo Gais

Natural de Quarta Linha Nova Baixa, interior de Santa Cruz do Sul, Ricardo Luís Gais tem 26 anos. Antes de trabalhar na cidade, ajudou na colheita do tabaco da família. Seu primeiro emprego foi como recepcionista no Soder Hotel (2016-2019). Depois atuou como repositor de supermercado no Super Alegria (2019-2020). Entrou no ramo da comunicação em 2020. Em 2021, recebeu o prêmio Adjori/RS de Jornalismo - Menção Honrosa terceiro lugar - na categoria reportagem. Desde março de 2023, atua como jornalista multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações, em Santa Cruz. Ricardo concluiu o Ensino Médio na Escola Estadual Ernesto Alves de Oliveira (2016) e ingressou no curso de Jornalismo em 2017/02 na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Em 2022, migrou para o curso de Jornalismo EAD, no Centro Universitário Internacional (Uninter). A previsão de conclusão do curso é para o primeiro semestre de 2025.

Share
Published by
Ricardo Gais