Comportamento

Seu filho quer se vestir como menina? Ele não é o único

O assunto ainda é tratado como tabu, mas é cada vez mais comum as crianças não se mostrarem satisfeitas com o sexo que nasceram

Foto: Divulgação

 Criança desde cedo começou a se mostrar insatisfeita com seu sexo
Criança desde cedo começou a se mostrar insatisfeita com seu sexo

Quem vê fotos do pequeno Joey, o filho de 9 anos de Brad Pitt e Angelina Jolie, não se espanta: ele herdou a beleza dos pais. No entanto, o que surpreende é o fato do garoto ter nascido menina. A criança foi registrada como Shilon Jolie Pitt, mas desde cedo começou a se mostrar insatisfeita com seu sexo. Aos 4 anos, quando passou a demonstrar o desejo de ser um menino, a família buscou a ajuda de especialistas que aconselharam a aceitar a decisão. Assim, o cabelo de Shilon, foi cortado curtinho e os pais passaram a respeitar a forma como o filho gostaria de ser chamado: Joey.

Quem pensa que esse tipo de situação só acontece com o casal hollywoodiano está muito enganado. O assunto ainda é tratado como tabu, mas as crianças demonstrarem inconformidade com o gênero ao qual são identificadas é mais comum do que se pensa. De acordo com a psicóloga e mestre em Promoção da Saúde pela Unisc, Joana Puglia, cujo assunto foi tema da dissertação de mestrado, diferente do que se pensa, o gênero não precisa, necessariamente, decorrer do sexo, "como se tenta impor socialmente".  São justamente aquelas pessoas que possuem uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento que são chamadas de transgênero. E os sinais dessa insatisfação podem começar a aparecer ainda na infância.

Joana PugliaMuitos pais começam a se preocupar com a sexualidade do filho no momento em que a criança mostra mais interesse em brincar de carrinho, embora seja menina, ou quando o garoto passa a experimentar os saltos, vestidos e batons da mãe. Contudo, Joana explica que não há relação entre o entendimento do gênero e a sexualidade da criança. "O fato de uma pessoa ser transgênero não significa que seja homossexual", conta. Da mesma forma que as brincadeiras favoritas não fazem da criança um transgênero, ainda que a escolha seja por um brinquedo que se convencionou como sendo do outro sexo. 

"Quando uma criança se negar a usar o limitado guarda-roupa que lhe for apresentado como sendo de menino ou de menina, desejando ousar escolher suas próprias cores preferidas, ou mesmo seus brinquedos, não se assuste. Essa criança não estará, necessariamente, declarando-se transexual. Pode ser que esteja apenas dizendo que tem capacidade de escolher com o que vai brincar ou o que vai vestir", explica Joana.

Além disso, é preciso levar em conta que os brinquedos que se convencionaram como sendo de menino/menina foram assim escolhidos a partir do comportamento de homens e mulheres no início do século passado, quando elas ainda não tinham o direito de votar e não trabalhavam fora de casa, por exemplo. Assim, brincar com bonecas, fogãozinho, panelinhas era estimulado como um treinamento para ser mãe e cuidar da casa. "Esta estereotipia dos gêneros não tem levado em consideração que as mulheres de hoje, e já faz muito tempo isso, já adquirem e dirigem seus próprios carros, chefiam e sustentam suas próprias famílias, são profissionais nos mais diversos campos do conhecimento", complementa.

Contudo, se a criança, assim como o filho de Brad Pitt e Angelina Jolie, realmente não se identificar com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, o conselho da profissional é que os pais ouçam a criança, de modo a entender suas motivações. "Procurar sempre encontrar um meio de proporcionar a tranquilidade necessária para que ela possa ter um desenvolvimento saudável, sentindo-se amada e respeitada pelas pessoas mais importantes de sua vida é o melhor caminho", comenta. Conforme Joana, para lidar com esse tipo de situação é aconselhável que os pais procurem acompanhamento psicológico de um profissional especializado, que entende que a homossexualidade e transexualidade não são doenças ou transtornos, para não "causar danos irreparáveis às pessoas envolvidas".

Geralmente, o motivo para que os pais resistam à escolha do filho e tentem transformá-lo é para evitar que ele sofra com preconceito. Mas a psicóloga explica que esta não é a melhor solução. "Se dentro de casa essa criança perceber que é incondicionalmente amada e respeitada como ela é, se não acontecerem violências de qualquer ordem (física, sexual, psicológica), se a criança souber que tem nesta família o suporte para poder suportar o que vier lá de fora e que estarão ao seu lado, cobrando da escola o respeito de que é digna, ela terá sim mais condições de enfrentar a estranheza e estupidez do mundo", complementa a psicóloga. 






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