O pêndulo do relógio

Mês de José

Tudo é passageiro. 'Menos o motorista e o cobrador' – sussurra o gaiato Pêndulo

Passou o Carnaval com sua fábrica de sonhos. Afinal, tudo é passageiro. “Menos o motorista e o cobrador” – sussurra o gaiato Pêndulo. 

Na verdade, o dito popular – como todos os outros – encerra preciosa sabedoria. O Criador de tudo o que existe pode ser contemplado como o motorista e o cobrador. Não aquele que anota tudo e nos coloca no julgamento com base na lei. Mas o Misericordioso que nos cobra a prestar atenção na vida. E nos escancara oportunidades de reconhecimento das próprias faltas. 

Nada como um dia depois do outro, minha gente. Quanto mais tempo passamos sob o sol, mais valorizamos a paciência. Diz minha padroeira, santa Teresa: “Nada lhe perturbe, nada lhe espante. Tudo passa. Só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Só Deus basta.” E Deus não passa, Ele É.

O Carnaval já era. Hoje, primeiro de março de 2017, é Quarta- Feira de Cinzas, o início da Quaresma. Somos exortados a nos arrepender e acreditar na Boa Nova, o Evangelho. 

Quaresma é tempo de preparação para a festa da Páscoa. Dias e noites em que devemos ingressar em nossos desertos – cada um com sua história – e implorarmos à Infinita Surpresa que nos conceda as três virtudes teologais. Fé, esperança e caridade.

Pela primeira, acreditamos na misericórdia divina. Que tudo pode. Deus tudo perdoa em um coração arrependido. Por pior que seja a nossa falta. Mas para isso é preciso olhos que enxerguem, braços que acolham – que saibam abraçar – e pés firmes que caminhem na estrada da vida. Tarefas da esperança e da caridade.

Falando nisso, março é o mês dedicado ao grande São José. Durante longo tempo, o carpinteiro repousou à sombra de Jesus e Maria. Coube aos teólogos a reflexão inspirada.

A “Suma dos dons de São José”, de Isidoro de Isolanis (XVI), é uma obra de vanguarda para a josefologia. O jesuíta Francisco Suarez, da Universidade de Salamanca (início do século 17) situou o mistério de José na ordem hipostática: própria das pessoas divinas. Depois de 200 anos, o padre Eugène Charboneau aprofundou a importante percepção do mestre espanhol. Ressaltou que José também está inserido na ordem divina. O magistério da Igreja (Redemptoris custos – S. João Paulo, 1989) afirmou que, além de Deus ter assumido a realidade de Jesus Cristo, também assumiu a paternidade humana de José. 

O passo significativo foi dado pelo frei brasileiro Adauto Schumaker. Este assegurou (no dia 19 de março de 1987) que José é a “personificação do Pai”, título de uma obra magnífica de Leonardo Boff (2005). O teólogo afirma que José é o próprio Pai, na pessoa do carpinteiro. A inteira Trindade teria assumido nossa condição humana e habitado em nós. “A teologia que nasceu do louvor (doxologia) volta novamente ao mesmo louvor, agora, porém, enriquecida com mais razões para cantar e bendizer.” (“S. José, a personificação do Pai” – Ed. Verus, Campinas (SP), 2005, pag. 29).

Tese fascinante, mas não oficial. Que São José interceda por nós, do Brasil.






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